CBD e "A barreira do primeiro frasco"

Existe um momento muito específico que observo com frequência no consultório.
Ele não acontece durante a explicação do tratamento, nem quando apresento a ciência por trás do canabidiol. Também não surge quando falamos de receptores, sistema endocanabinoide ou individualização terapêutica.
Ele surge no instante de adquirir o primeiro frasco.
Até ali, o paciente concorda. Entende. Reconhece que o tratamento com CBD pode trazer benefícios reais. Muitas vezes, já tentou de tudo: medicamentos tradicionais, ajustes de dose, terapias paralelas, mudanças de estilo de vida. O canabidiol faz sentido. A proposta é lógica e tem aval científico.
Mas, quando chega a hora de dar o próximo passo, algo trava.
O medo do desconhecido disfarçado de cautela
Esse bloqueio nem sempre é financeiro. E isso é importante dizer com honestidade.
Em muitos casos, trata-se de medo.
Medo de investir em algo novo.
Medo de criar expectativa.
Medo de se frustrar novamente.
Medo de admitir que precisa de uma abordagem diferente da que tentou ate agora.
O cérebro humano tem uma tendência curiosa: ele prefere um sofrimento conhecido a uma possibilidade desconhecida, mesmo quando essa possibilidade pode ser positiva. A expectativa diante do novo tende a ser negativa por padrão. Não por lógica, mas por proteção.
A doença não espera
Postergar o tratamento, nesse contexto, parece prudência. Mas nem sempre é. Existe um ponto que faço questão de abordar com meus pacientes, porque ele é clinico, não emocional.
"A doença não pausa enquanto o medo decide."
Seja um transtorno de ansiedade, uma depressão, uma dor crônica, um distúrbio do sono ou uma condição orgânica, o processo patológico continua em curso. Ele escala. Ele se complexifica. Ele se infiltra em outras áreas da vida.
Adiar o início de um tratamento eficaz raramente é neutro. Na prática, costuma ter um custo biológico e emocional alto. Por isso, na minha experiência, o custo de ouvir o medo costuma ser maior do que o custo do frasco, principalmente quando esse medo esta errado.
O que acontece depois que a barreira é atravessada
Ao longo dos anos acompanhando pacientes em tratamento com canabidiol, uma coisa me chama atenção de forma consistente: Quando o paciente enfrenta essa primeira barreira, mesmo com receio, mesmo com dúvidas, e inicia a primeira fase do tratamento, algo muda.
Não apenas nos sintomas, mas na relacao dele com a propria condição.
Vejo alívio. Vejo surpresa. Vejo a sensação de "era isso que estava faltando".
E digo isso com tranquilidade clínica: ainda não vi um único paciente arrependido por ter iniciado corretamente o tratamento com CBD.
Na verdade, o que acontece com mais frequência é o oposto. Muitos relatam alívio quando chega o momento de renovar o frasco.
A barreira não é o frasco. É o passo.
No fim das contas, a chamada "barreira do primeiro frasco" raramente é sobre o produto em si. Ela é sobre dar um passo em direção ao cuidado. Sobre admitir que continuar como esta não é mais sustentavel. Sobre confiar em um processo bem conduzido.
O canabidiol não é uma promessa mágica. Ele é uma ferramenta terapêutica séria, que exige acompanhamento médico, ajuste fino e responsabilidade. Mas, quando bem indicado e corretamente utilizado, costuma entregar algo precioso: qualidade de vida recuperada.
Se você esta parado exatamente nesse ponto, entendendo o tratamento, mas hesitando no primeiro passo, talvez a pergunta não seja "e se não funcionar?".
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Talvez seja: quanto está custando continuar adiando?